Dia desses conversava com uma cliente e falávamos, como muitos, sobre o uso da inteligência artificial, as novas fronteiras que vão se desenhando conforme aprendemos a extrair ao máximo as informações dos chatbots. Estávamos muito emocionadas, eu falando do quanto a IA me ajudava com planilhas, pautas, pesquisas, curadorias. E ela argumentando que pediu para a máquina escrever um artigo sobre performance nas organizações e a ferramenta entregou tudo o que ela pensava sobre o tema, como se fora ela. “Ela escreveu tudo o que eu já tinha elaborado!” E daí fiquei pensando: é exatamente isso, a inteligência artificial nos ajuda – e muito – entregando tudo o que já se pensou sobre algo.
Ela vai lá, pesquisa, com base no que está disponível e nos inputs humanos, e nos entrega em forma de texto, de imagem, de pesquisa, um suco do que já foi pensado, discutido, elaborado. Talvez o senso comum, ainda que super organizado, correto, lógico. A depender de nossa astúcia e bagagem no prompt, um blend bem gostoso.
Gosto de ter em mente um artigo do Outras Palavras que fala sobre o exército de pessoas – que, como todo sistema em massa, é mal remunerado – que alimenta a AI. Diz na matéria assinada por Josh Dzieza: “Mesmo por trás dos sistemas de IA mais impressionantes, existem pessoas – um grande número de pessoas rotulando dados para treiná-los e esclarecendo dados que pareciam confusos. Somente as empresas capazes de comprar esses dados podem competir, e justamente as que os obtêm são altamente motivadas a mantê-los em sigilo. O resultado é que, com poucas exceções, pouco se sabe sobre as informações que moldam o comportamento desses sistemas e menos ainda sobre as pessoas que fazem a modelagem.”
Quer dizer que para automatizar o trabalho de muitos são utilizados outros tantos. A inteligência humana é a base da inteligência artificial, e os rotuladores, aqueles que vão informando as máquinas, são pessoas. Se for para informar sobre uma blusinha, paga-se tanto. Se o tema é filosofia ou direito, um tanto mais, porque aí requer-se especialistas.
O tema é vasto, mas vale a reflexão. Se a IA nos entrega o que solicitamos de acordo com as perguntas ou prompts que fazemos a partir de uma base conhecida, abastecida por rotuladores ou anotadores geralmente sediados na linha debaixo do Equador e ganhando quase que moedas, o quanto ela pode nos entregar de novo, criativo e realmente inovador, sob a perspectiva de que o humano deve estar sempre pronto a enfrentar os problemas sob uma nova ótica?
