Desamoroso

Velho Goulart

O meu pai foi uma figura ímpar. Isso, todos os pais são para seus filhos. Mas ele soube ser, acima de tudo, um grande mestre, daqueles de dar orgulho pelo legado que deixou. Das primeiras lembranças que tenho, além de um pai carinhoso e conversador, ainda que fisicamente ausente, era que ele nos trazia o mundo. 

Jornalista, publicitário, poeta, boêmio, bon vivant, ele andava por muitas terras e de cada uma nos presenteava com algum mimo e muito conhecimento. Eram livros, discos, vestidos, comidas. E, acima de tudo, pensamentos, ideias, diferentes modos de ver a vida. 

Com ele, aprendi a gostar de coisas boas, a ouvir de MPB a Beethoven, a curtir o gaúcho como raiz e não como folclore, a apreciar da comida árabe à portuguesa. Aprendi a me relacionar com todo tipo de gente, de todas as filosofias. A saber a importância da comunicação, a cultivar minha imagem pessoal.

Seria muito fácil escrever tudo o que transborda de mim e que aprendi com o velho Goulart. Nossa convivência, se colocarmos em tempo histórico, foi pouca. Nossa afinidade, porém, foi de uma intensidade imensurável. Quanto mais eu vivo, leio, interajo, aprendo com grandes professores, grandes líderes, mais eu reconheço o quanto o Desamoroso – era assim que ele chamava quem amava – nos deixou aprendizados perenes. 

Crônicas com o Velho Goulart

"Duas coisas são nossas para sempre: o nome e a liberdade."

São eles que compartilho na coluna Desamoroso – Crônicas com o Velho Goulart. Uma coluna de memórias, posto que o Desamoroso partiu ainda na minha adolescência, mas repleta de diálogo com o mundo contemporâneo. Como o é tudo o que tem valor. Na vida, como ele mesmo dizia, citando Lavoisier, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.