O tempo certamente é uma das coisas mais belas. Ele acomoda, redimensiona, coloca tudo nas devidas caixinhas.

Essa lembrança do Desamoroso, da época em que ele inventou – sim, porque se tinha coisa que ele gostava era de inventar e não ter paradeiro! – de morar na Lagoa da Conceição, em Florianópolis, é maravilhosa. Foi ali, com o pai, que descobri como “enganar” os amigos dele. E me tornei uma contraventora. Isso mesmo!
Era época em que tomar o uísque Cavalinho Branco era uma coisa digna. E lá estava eu na Lagoa, passando alguns dias de férias com ele. Todos os dias, antes do almoço e do jantar, minha obrigação era servir o drinque, enquanto ele se encarregava da comida. Um dia era galinha com cerveja, no outro bacalhau. Algum dia era carreteiro; depois vinha peixe à escabeche, bifinhos e outros quitutes que ele ia aprontando. Eu ficava ali, de assistente, e, bem ensinada, calculava: três pedrinhas de gelo e meio copo de White Horse para o cozinheiro.
Chegou um dia em que ele avisou: hoje vamos receber uns amigos para jantar.
Eu adorei! E, faceira, disse: pode deixar que o uísque é comigo! E ele: Sim, mas desta vez vai ser diferente. Vem um cara meio metido e nós vamos sacaneá-lo. Pega aquele Natu ali, uma garrafa vazia do Cavalinho e vamos colocar o Natu, que é meia boca, na embalagem do bom. Tu serves o bom para mim e esse outro, para eles.
Na hora perguntei: Mas, pai, eles não vão saber? E ele: São uns “propa” (de proparoxítona, adjetivo que ele usava para dizer que a criatura não era muito digna de apreço), nem sabem apreciar. Vai por mim.
E assim fizemos. Fomos para a falsificação! Entre muitos risos, a noite foi fantástica. A cada um que eu servia, a gente se olhava com ar de cumplicidade. Nós dois ríamos por dentro. E os amigos, felizes, só elogiando o quanto o Goulart e sua filha recebiam bem, com o melhor da época.
Não foi maravilhoso?
