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A paisagem como extensão de si

por Miricis By Dani Goulart
28 de agosto de 2026
em Casa & Hospitalidade

“Não selecionamos apenas as plantas; desenhamos a forma como as pessoas passarão a perceber a arquitetura e viver os espaços externos ao longo do tempo”. Alexandre Galhego

Existe uma qualidade distinta nos jardins que parecem sempre ter pertencido à casa que abraçam. A cor que não destoa, a textura que conversa com a pedra do muro, o aroma exalado pelas flores, a planta que sempre esteve ali – ou parece que esteve. Criar esse pertencimento é o que move o paisagista Alexandre Galhego, engenheiro agrônomo e mestre em botânica, responsável por centenas de projetos Brasil afora. “Hoje, buscamos trazer melhor qualidade de vida por meio da vegetação, promovendo uma verdadeira extensão de si”, afirma.

Com escritório em Campinas, mas grande conhecedor da beleza e da diversidade da flora brasileira, Galhego busca, em cada projeto, a seleção de plantas locais para dar identidade aos projetos. “Não nos guiamos muito por modismos, mas pelo uso dos elementos que estão no território, sejam eles as plantas, as pedras, as madeiras”, afirma.

O paisagismo bebe da fonte da harmonização de elementos. Seja em grandes ou pequenos projetos, a busca é a mesma, proporcionar a integração com a natureza de forma orgânica: “No cotidiano, é muito factível de estar cercado por uma paisagem que faça bem e que reflita a personalidade dos moradores.”

Adepto de soluções simples e palatáveis – o que nem sob hipótese significa projetos sem graça –, Galhego avalia que o paisagismo, como tantas outras áreas, passa por mudanças. Ao afirmar que a pandemia foi um grande divisor de águas para o setor, ele afirma o quanto, no geral, começamos a perceber mais a importância do verde em nossas vidas. “O paisagismo tem sido utilizado para trazer convivência, bem-estar, muito mais do que admiração.”

Nesse quesito, tudo é analisado: desde o local onde se quer o paisagismo, como relevo, ventos, espécies, clima, drenagem, iluminação, até os hábitos e comportamentos dos usuários do espaço. “Não selecionamos apenas as plantas, mas sim desenhamos a forma como as pessoas passarão a perceber a arquitetura e viverem os espaços externos ao longo do tempo”, ressalta ele.

Natural que, uma vez idealizado e finalizado, o jardim precisa passar por uma manutenção constante. Ao fazer uma analogia com a criação de um filho, Galhego afirma que, o jardim, quando jovem, precisa de mais cuidado, mais energia para que cresça bem; após, quando mais maduro, a energia é menor, mas os cuidados passam a ser outros. “O paisagismo é um organismo vivo. As plantas crescem, mudam de forma, retratam relações entre si e nossa atuação consiste em antecipar esse desenvolvimento para que o jardim continue bonito e equilibrado durante muitos anos”.

Uma clareira para respirar

Um exemplo do quanto o jardim dialoga com seus moradores ou visitantes pode ser visto durante a Casa Cor SP, onde o profissional ficou como responsável pelo espaço Clareira na Mata. Ao redor de uma figueira centenária do Parque da Água Branca, Galhego construiu um espaço de 290m² que dispõe espécies nativas, mudas, e cria um espaço de aconchego e de estar. “É realmente a sensação de uma clareira, de algo que surge na mata, mas que também surge quando temos esse respiro.”

A sustentabilidade, outra guia do trabalho de Galhego, também esteve presente no projeto. “Gostamos muito da filosofia japonesa, que nos diz que um material, quando retirado da natureza, precisa durar o mesmo tempo que quando está nela; assim todo eucalipto que utilizamos para os bancos, por exemplo, foi totalmente reaproveitado, de modo que tenha um ciclo que comporte seus 80, 90 anos.”

Fotos: Miti Sameshima e João Friederichs/Divulgação

Tags: alexandre galhegocasa & hospitalidadejardimmiricismiricisbydanigoulartpaisagismo
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