O Edelman Trust Barometer 2026 mostra que sete em cada dez pessoas hesitam em confiar em quem pensa diferente. Nesse cenário, a confiança se concentra em quem está perto
Nestes tempos bicudos, em que as redes sociais e o ambiente digital nos fazem pressão pela presença constante, a reputação de quem decide tem sido colocada à prova a toda hora. Não à toa, muitos empresários e executivos C-level optam por não ter perfis nas redes, sejam eles do jeito que for. Entre o risco de se expor de forma indevida e o preço por não aparecer, analisam, melhor ficar com o segundo. O posicionamento tem sua razão de ser. Cuidar da reputação na era do conteúdo associado à distribuição realmente parece um bicho de sete cabeças.
Tanto que os profissionais mais sofisticados ou se mantêm low profile ou estão abandonando a presença excessiva nas mídias e adotando uma presença cirúrgica e seletiva. O luxo da reputação, hoje, não está em provar tudo o tempo todo. Fundamental é escolher com critério onde aparecer, com quem aparecer e como aparecer. Sabe aquele profissional que, quando fala, todo mundo se cala para escutar? Certamente não é aquele que está nas redes a toda hora. E tampouco aquele que cria conteúdo a partir da IA. Existe uma presença que impressiona e uma presença que convence. E, aqui, se coloca quem faz a diferença. Não como o que aparece, mas como o que tem substância. Aquele que vem para modelar os diferentes perfis e fazer com que todos busquem o resultado, e não para definir o perfil que busca e fazer com que a pessoa se encaixe nele.
Em quem ainda confiamos
O Edelman Trust Barometer 2026, estudo anual sobre confiança realizado em 28 países, ajuda a entender por quê. Em uma sociedade em que a mentalidade insular ganha fôlego, o “meu” CEO tem se mostrado a figura mais confiável. Grifo para o “meu”. No Brasil, entre as pessoas com mentalidade insular, ele tem 65% de confiança entre os empregados, contra 52% de qualquer CEO, seguido de vizinhos (50%), jornalistas (49%) e autoridades governamentais (37%).
O que é a mentalidade insular
Ao contrário do que cantava Belchior em Princesa do Meu Lugar, a terra toda não é uma ilha. A mentalidade insular, que corresponde a sete em cada dez pesquisados, no Brasil e no mundo, afirma que a a pessoa hesita ou é pouco disposta a confiar em quem pensa de forma diferente. Nesse quesito, estão os que vivem com outros valores, acreditam em outros fatos e fontes, lidam de outra forma com os problemas sociais e têm cultura, origem ou estilo de vida diferentes.
Falar para fora e para dentro
Daí o peso que recai sobre o CEO, aquele que deve vir a público falar, esclarecer, posicionar. Interessante que não exclusivamente para o público externo, mas também para a força de trabalho. No Brasil, 70% dos empregados acreditam que o empregador tem a obrigação de reduzir as divisões e facilitar a construção de confiança entre grupos distintos. Só 47% acham que ele cumpre bem esse papel. No recorte global, a conta fica ainda mais apertada para quem ocupa a cadeira: 73% entendem que os CEOs têm essa obrigação, e 44% avaliam que eles dão conta do recado.
E o que o estudo aponta como eficaz para fechar essa distância não tem nada a ver com postar mais. Para 75% dos pesquisados, funciona o CEO que consulta pessoas com valores e origens diferentes antes de decidir. Para 74%, o que conversa de forma construtiva com quem critica ou desconfia da empresa. Escutar, portanto, antes de falar.
O que nos devolve ao começo. Não ter perfil nas redes pode ser uma escolha legítima. Sumir, não. A confiança, mostram os números, mora no “meu”: em quem a gente conhece, vê trabalhar e escuta de vez em quando. Presença cirúrgica é isso. Aparecer pouco, no lugar certo, e ter o que dizer a ponto de fazer todo mundo se calar para escutar.
