Uma das coisas mais deliciosas eram as aulas de vocabulário do Desamoroso no Bar 13. Assim ele ensinava a quem a gente devia respeitar. Ou não!
O Desamoroso conhecia muito as palavras. E as usava com uma perfeição danada. Sempre rodeado de políticos, empresários, e tendo o dom da fala, era assediado por todos aqueles que desejavam se projetar. Esperto como era, quase não comprava brigas, circulava com maestria por todos os lugares, conversava com todo mundo. O que não significava deixar de ter seu senso crítico, seu posicionamento.
Um desses locais favoritos, em Caxias do Sul, era o Bar 13, reduto dos intelectuais e outros tipos da época. Eu eventualmente era a companhia dele. Primeiro, no horário do almoço, porque a mãe mandava chamá-lo para almoçar. Morávamos a uma quadra. Eu ia às 11h30 e voltávamos os dois perto das 13h. Nem preciso dizer o quanto ela achava ótimo, eu tendo ainda que ir para a escola à tarde! Os olhos pareciam dois fuzis quando chegávamos faceiros, brincando! Depois, comecei a levá-lo no happy hour. Ele, já na cadeira de rodas.
Certo dia, estávamos lá, nos aperitivos para o almoço. Eu cheguei, ele me colocou no banquinho com assento de couro vermelho, fez os meus pedidos e seguimos. Ele, conversando, declamando, contando causos e tomando seu uísque. Eu, balançando as pernas, comendo batatas fritas com Coca-Cola (ele realmente sabia agradar!), ouvindo aquele papo todo e já com o meu chocolate preferido no balcão – era uma barra que tinha a imagem de vaquinhas pastando nos alpes suíços. Como se precisasse de mais um prêmio para esperar por ele, tendo todo aquele universo acontecendo à minha frente!

Eles riam, xingavam, falavam de futebol, de política, de economia, de mulheres, do Brasil. Eu esquecia do mundo. Ficava ali, encantada e agradada, só vendo o desenrolar da conversa. Como depois se mostrou minha sina ao circular nos ambientes prioritariamente masculinos, naquela época eles também não tinham filtro. E, desde cedo, eu ouvia tudo o quanto é coisa. Benzadeus!
Em um desses dias, na hora de sair, não porque o tema tivesse esgotado, mas porque eu precisava ir para a escola e a mãe estava esperando, ele se despediu dos amigos com aquela galhardia de sempre, pegou na minha mão, me olhou e disse, apontando para um dos caras com quem ele travava a conversa: “Aquele ali, Dani, além de propa (já contei essa história aqui!), é um baita de um energúmeno, microcéfalo”. Rsrs… Eu nem tinha ideia do que significava tanto xingamento, mas na hora revidei: “Mas pai, não é teu amigo?”. E ele: “Amigo, não, conhecido; porque não dá para ser amigo de gente ignorante.” E, enquanto me explicava o significado de cada palavra, e o porquê de adjetivar o frequentador daquela maneira, a gente dava risada enquanto descíamos o morro da Borges de Medeiros para chegar em casa.
O pai era assim: ele sabia distinguir quem era amigo, quem era conhecido, quem valia alguma coisa e quem não valia nada. O Desamoroso tinha dessas. Ele entendia a alma humana, rotulava as pessoas e muito dificilmente errava.
