Há uma confusão antiga, e curiosamente persistente, entre poder e autoridade. São palavras que vivem juntas nas salas de reunião, mas que têm origens e impactos muito diferentes.
Na etimologia da palavra – coisa que eu realmente adoro pesquisar —, poder vem do latim potere, de potis: aquele que pode, que tem força, que ocupa posição. O poder é conferido. Vem com o cargo, com o título, até com a hereditariedade. Pode ser delegado, retirado, redistribuído. É, em essência, uma questão de estrutura, de constituição social. Aquela geralmente proveniente dos organogramas, dos cargos, dos papéis. Pode-se concordar ou discordar. Uma hora está posta; na hora seguinte, pode não estar. Poder não vem da lógica de natureza. É, como tantas outras, uma relação social, que estrutura a forma como as pessoas estabelecem suas conexões.
Autoridade é outra coisa. Vem de auctoritas, de auctor — aquele que cria, que origina, que faz crescer. A mesma raiz de autor. Não por acaso, autoridade traz algo único, a autoria. E olhem que interessante, tem a etimologia também no verbo augere, que significa aumentar, fazer crescer, promover. Então, não só é capacidade de imprimir no mundo algo que só você tem, como essa capacidade é capaz de melhorar o que está tanto em si como ao seu redor. Pode ser uma visão, uma voz, uma forma de existir que é inconfundível. Na Roma Antiga, auctoritas designava prestígio, sabedoria, influência.
Autoridade não se confere. Não se herda. Não chega pelo memorando ou pelo comunicado. Se reconhece.
E é exatamente por isso que ela não some quando o cargo acaba.

CEO no centro do palco
Faço essa abordagem inicial para chegar em dados. O Edelman Trust Barometer, pesquisa realizada anualmente e que mede a confiança do ambiente corporativo, tem documentado, ano a ano, uma transformação no modo como as pessoas confiam em lideranças. O CEO, essa figura que durante décadas ficou atrás de porta-vozes, assessorias e comunicados institucionais escritos por experts da comunicação, voltou ao centro do palco. Só que de um jeito diferente. Desta vez, não como personagem corporativo, com roteiro, mas como pessoa. Não como poder, mas como autoridade. Como alguém que pensa, que tem posição, que afirma e que assina o que diz. As pessoas querem ouvir quem está no comando, sim. Mas querem ouvir quem está no comando sendo exatamente quem é. Não um fabricado.
A Weber Shandwick, uma das líderes mundiais em relações públicas e comunicação corporativa, tem sido mais direta: 49% da reputação de uma empresa está diretamente atrelada à reputação do seu CEO. Isso significa que quase metade do valor percebido de uma organização vive, se arrasta ou morre, na figura de quem a lidera. Deixe de lado o produto, a propaganda, as redes sociais, o DRE. A reputação está na pessoa, no líder.
E aí chegamos à terceira palavra desta equação.
Reputação, o balanço que fica
Reputação vem do latim reputare — re mais putare, que significa contar, calcular, ponderar. O re nos traz aquilo que fazemos repetidas vezes, de forma intensa. No sentido original, reputação tem na raiz esse refletir, mas com consistência, com apuro. Hoje, reputação é o balanço que o mundo faz de você. Mas não faz à toa. Faz a partir daquilo que você faz todos os dias, de forma consistente. É o que fica no cálculo dos outros depois que a reunião termina, depois que a entrevista acaba, depois que o post some do feed. É o saldo. E saldo, a gente sabe: ele não aparece na conta do nada. Ele é construído, para mais ou para menos, a cada decisão que se toma.
O problema é que muita gente confunde reputação com aparição. Aparição é aquilo que a gente vê, o que a pessoa projeta. Reputação é o que se sedimenta. E elas nem sempre coincidem. Diria até mais, que raramente coincidem.
Nas redes sociais, essa distinção ficou escancarada. Nunca foi tão fácil aparecer. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil sustentar uma reputação. A frequência de postagens, o número de seguidores, a consistência visual, tudo isso vai dando visualizações, engajamentos, curtidas, compartilhamentos. Mas o que cria reputação é outra coisa: é o que você diz, e como você age, a cada momento de forma a ser coerente com o que você diz.
É a forma como você se posiciona de acordo com a sua integridade. É aquilo que até já virou clichê, mas que segue valendo: é o que as pessoas comentam sobre você quando saem da sala.
Há pessoas que têm milhões de seguidores, centenas, milhares de colaboradores, e reputação zero. E há quem sequer esteja nas redes sociais e seja a referência de todos que para ele ou ela importa.
A diferença, sempre, é a autoria. É o que só aquela pessoa poderia ter dito, escrito, feito. Assinado.
Para quem está em posição de liderança, e aqui não falo apenas da liderança corporativa, mas da liderança como postura diante da vida, a reputação não é uma estratégia de comunicação. É uma consequência. É o resultado visível de quem você é e do quanto foi acumulando ao longo do tempo. Pelas suas atitudes, pelo seu estilo de vida.
Construir autoridade, portanto, não é uma questão de visibilidade. É uma questão de identidade. De ter algo a dizer que só você tem. De ser o autor da sua própria presença no mundo, seja na organização que atua, seja dentro da própria casa.
Poder ocupa cargo. Autoridade amplia espaço. E reputação é o que fica.
