Uma das coisas que aprendi com o Desamoroso foi a de que sempre há um jeito de fazer o que queremos. Ele tinha o hábito de, após o almoço, dar uma sesteada, como bom missioneiro que era. Mas não era um comportamento qualquer. Vinha cercado de ritos que me diziam respeito.
O primeiro, era o de servir o café, preto e com açúcar. O segundo, de que eu ficasse ali, fazendo massagens nas panturrilhas e coçando as costas. Para uma criança, que gostava de um agito, o prazer dele era a minha desgraça. Da qual eu não me furtava, é claro. Até porque era um momento gostoso e, com ele, fui aprendendo a negociar.
A primeira negociata era que o cafezinho, que eu tanto queria e era proibido pela mãe, eu ganhava. Sempre o restinho. Doce, em função do açúcar acumulado no fundo; frio, visto que já ele gostava de morno; pouco, porque o principal ele já havia tomado. Mas, afinal de contas, era um cafezinho. E era meu. Tanto que até hoje um dos meus grandes prazeres é deixar o restinho. Ai de quem encoste na xícara antes de eu tomá-lo!
O segundo truque que fui aprendendo foi ao coçar as costas. Com o tempo, descobri que em uns 10, 15 minutos de uma verdadeira massagem, o pai adormecia. Era o que eu precisava para escapar. Havia um mundo me esperando! No entanto, quando eu tirava a mão, ele sentia, e acordava. Eu tinha que seguir.

Foi aí, em um determinado dia, que me veio a ideia de coçar as costas acompanhada de uma boneca de pano. Quando, após o almoço, ele pedia o café, eu já me aprumava, pegava a xícara, servia o café, e buscava a boneca.
Começava o ritual todo – ele tomava o café; eu, o restinho; ele se deitava, eu tirava as meias, fazia massagens nos pés e panturrilhas e ia para as costas. Eu começava e a boneca finalizava. Quando eu percebia que ele pegava no sono, acomodava a boneca bem direitinho nas costas dele, fazendo aquele pesinho gostoso. Ele resmungava, mas não acordava.
Hoje, lembrando dessa história, me vem a imagem de um leve sorriso no rosto do Desamoroso. Será que ele sabia que era a boneca e se divertia com minha traquinagem? Até hoje não sei. Mas que eu saía correndo para brincar, ah, isso eu ia! A boneca que trabalhasse!
