Toda adega tem uma garrafa à espera do momento certo. Mas o que guardamos, afinal: o vinho ou a ocasião?
É só a gente conversar com um bom apreciador de vinhos para descobrir que ele tem, lá na adega, uma garrafa guardada, esperando o momento certo de ser aberta. As justificativas são muitas. “Ele está envelhecendo e ainda não chegou ao auge.” “Esse eu ganhei quando minha filha nasceu, tem potencial e estou esperando os 15 anos dela para abrir.” “Essa garrafa é única, paguei milhares de euros.” “Essa outra foi de uma viagem especial.” “Essa é de uma safra homérica.” E por aí vai. São tantos, mas tantos os motivos, que daria para catalogá-los em páginas e páginas, daquelas que superam as das cartas mais ecléticas do país.
E a grande pergunta, que ultrapassa o vinho, é: por quê? Que existem vinhos de guarda, capazes de evoluir por anos na garrafa, isso é ponto pacífico. Que podemos reservar aquela especialidade para uma determinada ocasião, também. Agora, para usar um termo bem gaúcho, por que ficamos chuleando tanto? Espiando, aguardando, caseando ponto a ponto – e por vinhos que talvez nem valham tanto –, sob o risco de a grande hora se transformar em um belo vinagre?
Lembro que, na adolescência – e, de certa forma, ainda vivemos assim, sobretudo quem trabalha com eventos –, o melhor da festa era esperar por ela. Os preparativos, a escolha da roupa, dos acessórios, o quem vai estar, as conjecturas sobre o que poderia acontecer, o esquenta (a resenha, para usar um termo atual): tudo isso impactava sobremaneira. A festa, bem, sobre a festa em si não temos qualquer controle. E nem sempre ela correspondia à expectativa. Por vezes, ficava abaixo. Em outras tantas, superava. De um jeito completamente inesperado.
Para saber qual garrafa vale a pena guardar, é preciso conhecimento. Da vinícola, da safra, do produtor, do terroir, das condições de armazenamento, entre tantas outras variáveis. Do contrário, é aposta. Até ser engarrafado, o vinho está nas mãos de quem o faz. Depois, segue sua vida. É organismo vivo. E nós, então? Mudamos a cada instante. O panta rei de Heráclito nos faz escorrer pela vida de um jeito sempre diverso.
Talvez por isso a garrafa guardada diga mais sobre o zelador do que sobre o vinho. Ela é a festa que estamos esperando. E, enquanto não acontece, pode ser perfeita. Abrir é aceitar que ela fique abaixo da expectativa. Ou que a supere, de uma maneira que nem sonhávamos. O vinho vai seguir sua vida dentro da garrafa, com ou sem a nossa licença. Nós também. Nenhum dos dois pode dar garantia. Entre o auge e o vinagre, o momento certo raramente é o que está marcado no calendário. Costuma ser aquele em que tem gente em volta da mesa. E alguém que, enfim, pare de chulear e arremate o ponto.
Foto: adega Boccati/Divulgação
