Quando a gente fala nas migalhas do nosso cotidiano, muitas vezes o Desamoroso salta de dentro de mim e dou excelentes risadas. Uma dessas aconteceu esses dias, em um webinar, quando o anfitrião – sim, o anfitrião!!! – abriu a reunião enrolando a língua com um chiclete na boca. Bastou para que eu lembrasse de uma das máximas do Velho Goulart.
Eu tinha meus 10 anos, por aí, e era o que a gente chamava pejorativamente de “magra chicleteira”, hábito que aos poucos, e de tanto lembrar dessa história, fui abandonando. Mas, que volta e meia, principalmente na estrada, ainda me pego fazendo. É claro que ele achava horrível uma pessoa mascar chicletes. Primeiro, porque ele achava antiestético demais, uma afronta a si e ao interlocutor. Segundo, porque a goma de mascar, nada mais era do que um símbolo do imperialismo americano, o que ele era terminantemente contra. Um estilo de vida abominável.
Então, a cada vez que ele me via com o chiclete na boca, lá vinha a pergunta: “Dani, tu sabes a diferença entre um americano mascando chicletes e uma vaca pastando?”. Na primeira vez, eu não sabia. E ele respondeu: “O olhar inteligente da vaca”. Kkk! O pai era muito bom!

Anos mais tarde, já como executiva de Marketing de uma das maiores metalúrgicas de Caxias do Sul, fui recepcionar um presidente de uma multinacional, britânico (ai!), de uma empresa que estava por fechar uma joint venture. Homem garboso, dos seus 50 anos, elegante, viajado, cidadão do mundo, com a elegância da terra da rainha. Era aqueles dias em que me faltou o olhar inteligente da vaca, e fui – mascando chiclete. Nos apresentamos, conversamos sobre mercado, business, levo-o até o meu presidente, participo da reunião, ajudo na tradução, apresento as estratégias de lançamento do produto e, na despedida, tudo selado, ele agradece e me elogia (sic!), encerrando a conversa: “Daniela, você tem uma carreira brilhante, só não masca mais chicletes”. Putz, foi o que bastou para acabar comigo.
Hoje eu ainda rio disso! Do pai, deste senhor, e tomei como regra: em qualquer interlocução, não masco chicletes, não chupo balas, não como – a menos que seja uma refeição, naturalmente. Podem até ser hábitos que tenham sua função, mas jamais nos negócios. E, quando no caminho, cruzo com uma vaca, olho bem nos olhos dela. Nem precisa dizer a conclusão que eu chego.
