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O estilo de vida de Paulo Geremia, o fundador da rede Di Paolo que levou o galeto ao Brasil inteiro

por Miricis By Dani Goulart
23 de julho de 2026
em Inteligência Interior

À frente de mais de 20 restaurantes em cinco estados e DF, o empresário gaúcho fala sobre liderança, estilo de vida e o que move um empreendedor aos 64 anos

Faz exatos 30 anos. Eu estava na redação do Pioneiro, jornal de Caxias do Sul (RS), quando a telefonista passou uma ligação: “Dani, tem um dono de restaurante querendo falar contigo; Paulo, o nome dele”. Eu, colunista de Gastronomia, atendi. Do outro lado da linha, com o sotaque carregado de gringo e a objetividade que perdura até hoje, ele de bate-pronto perguntou: “É tu que escreve sobre comida?”.

À resposta positiva, disse: “Te interessa dizer que meu restaurante ganhou uma estrela do Guia 4 Rodas?” Sim, era claro que sim. “Então vem aqui almoçar e fazer uma reportagem bonita, mas vem logo!”. Eu fui. Mal eu sabia que naquele telefonema começava uma amizade e admiração que atravessa três décadas.

Paulo Geremia, fundador e sócio proprietário da rede Di Paolo, também não sabia que hoje, três décadas depois, teria sob sua gestão uma marca presente em 22 restaurantes Di Paolo, no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília (a inaugurar em agosto/26). Tampouco tinha a noção de que a iguaria mais típica da Serra gaúcha, o galeto al primo canto, conquistaria o paladar exigente do centro do país.

O que ele sabia, e sempre soube, era que ali, no então Giuseppe Posto Per Mangiare, fundado em 1994, em Garibaldi (RS), estava a essência de tudo o que ele sempre quis fazer na vida: servir com alegria.

Reconhecido pelo jeito autêntico, que transita com a maior naturalidade tanto entre funcionários como entre empresários do Brasil e do Exterior, Paulo tem um estilo de se apresentar que é muito característico. Os sapatos personalizados, as roupas de caimento perfeito, o jeito de arrumar o cabelo, tudo compõe a personalidade deste homem que ao longo dos anos tem se tornado uma referência em liderança. Certamente pelos negócios em que atua, mas principalmente pelo estilo de quem sabe viver.

Para chegar a esse estágio, Paulo, aos 64 anos, segue trabalhando muito, como todo bom empreendedor – cuida dos restaurantes, propõe novos negócios, faz gestão de equipe, conversa, viaja, estuda, dá palestras. A rotina seria exaustiva. Este ano, além de inaugurar um projeto autoral há muito idealizado, o Paulo Geremia Vino & Cucina, no Vale dos Vinhedos, fez duas viagens de estudos – uma à China, outra à Espanha. A primeira, para conhecer a cultura, o jeito de fazer negócios, as novidades. A segunda, para mergulhar na arte, enobrecer a alma. Há, nele, uma inteligência interior que molda o estilo de vida singular que sustenta tanto o homem como o empresário.

É sobre isso que ele concedeu essa entrevista pingue-pongue exclusiva para a Miricis.

Para mim, que sempre consegui entrevistá-lo a prestações, entre uma interrupção e outra, foi um momento raro – eu diria que de quase – veja bem, “quase!” – total atenção. E, contrariando a regra do bom jornalismo, me permito deixar a fala tal como a do entrevistado. Quem conhece o gringo de Dois Lajeados, sabe: seria até desrespeitoso colocar Paulo Geremia a falar você – ou o tu conjugado.

Miricis: Paulo, ao mesmo tempo em que sempre te vejo na ativa, nos restaurantes, em cursos, viagens, também eu percebo uma tranquilidade que te guia, uma sabedoria, seja nos momentos mais desafiadores. Como se dá isso?

Paulo Geremia: Isso vem muito do autoconhecimento. Acredito que o principal, para se viver bem, é ter o próprio projeto de vida, saber qual é ele. Assim, entender o que te realiza, e saber que se tu não fizer aquilo, não tem outro que vai fazer, porque aquilo é tu. Então, tu escolhe viver esse projeto. Tu decide. E do momento que tu decidiu que aquilo é pra ti, tudo ao redor se realiza. Isso parte de um autoconhecimento que se busca diariamente, também nos livros, no estudo no MBA, nas consultorias. O estudo é uma forma de aprofundar o estilo de vida, que faz também crescer o negócio. Mas é importante também as relações.

Em que sentido?

Quando tu está em uma relação, quando tu está com a família, com os filhos, tu tem que se manter muito íntegro. A gente não percebe, mas quando se está com pessoas, todo o contexto muda, e é preciso manter muito forte a própria identidade.

E como a gente faz isso? Porque às vezes é fácil falar, mas na prática, como se dá essa manutenção de si mesmo?

Primeira coisa é estar com o seu projeto. É claro que não se começa direto; vai fazendo, e quando vê que acertou, tu tem a realização, a felicidade. Vai trabalhando, vai descobrindo, e quando vê percebe que tu tem um dom, que recebeu esse dom. E se tu é fiel a ele, tua chance de acertar o resto é enorme, abrem-se muitas possibilidades. Mas primeiro de tudo, é preciso que o próprio projeto seja a prioridade. É sempre a primeira coisa.

Essa atitude poderia ser confundida com um egoísmo?

Não; porque quando a gente está fiel a nós mesmos, tudo vai se organizando a favor. Claro que muitas mudanças são necessárias. É preciso renda, dinheiro, influência para que se possa fazer o que se quer. Ser um bom exemplo acontece ao natural. Não é uma necessidade ser bom exemplo; a necessidade é fazer um bom projeto. Porque ao fazê-lo se estabelecem as relações para que todos ganhem. Se estou comigo, e confirmo para mim, tenho segurança no que estou fazendo, tudo vai bem. Eu não faço pros outros, faço para mim. E quando isso acontece, não existe aquele sacrifício de sofrimento, mas sim o sacrifício do que é sagrado, de dar o meu máximo para eu ter o meu máximo de resultado. Aquela coisa de encher o balde e transbordar para os outros.

Como saber, no dia a dia, se estamos fazendo o que deveríamos fazer?

Ah, isso é muito simples. Tu prepara a tua noite de sono. E a primeira coisa a saber quando for dormir é que tu não leva o problema para a cama. Aquela noite de sono é tua, no teu ambiente, no teu local. Então, fica umas duas horas sozinho, antes de dormir. Lembra o dia, como foi, não importa se teve muita coisa para resolver ou se ficaram coisas para amanhã. O que importa é que tu está satisfeito com o que foi feito. A boa noite de sono te garante um bom dia. Mas não pode ser preguiçoso. Na hora que acordar tem que fazer acontecer o novo dia, não fazer tudo no automático. É fazer as coisas de um modo que sente, sempre fiel à tua essência, independentemente de onde estiver.

Tu falas em fidelidade à essência. No mundo, hoje, somos bombardeados por diferentes informações. De mercado, de família, de notícias. Como manter essa integridade tendo que se relacionar com diferentes pessoas o tempo todo?

Então, tu não pode exagerar. Tem que ver as coisas como elas são. Tu pode receber uma informação, dar uma olhada. Mas não pode deixar entrar coisas que não são para ti. Hoje temos muito telefone, muita mensagem, muita notícia. É demais. Quando tu fica refém dessas informações, tu está dando pérola aos porcos. A mesma medida deve ser utilizada para coisas como amizade e conversas que se tem no dia a dia. Para tudo tem um limite. Há um momento em que a conversa deixou de ser produtiva. E se deixou de ser, é preciso saber parar. Não tem que culpar ninguém, porque seguir com algo que não faz bem não é bom para ninguém. Tem que ser perceptivo nisso. Não ficar mais do que se deve. É preciso ter um olho no peixe e outro no gato, como se diz. Estar sempre atento ao que está acontecendo contigo.

Como tu lidas com a questão de saúde?

Olha, eu gosto muito de fazer os exercícios de manhã, porque penso que ficaria inviável fazer à tarde. Minha alimentação é muito regrada. Mas, outra vez, faz para ti. Porque a mídia te cobra performance, vida saudável, mas não é que interessa fazer para os outros. É para ti. Tu tem que ter o princípio de que a tua saúde importa, porque é a saúde do operante que faz a saúde da unidade da ação. Então eu tenho que ver o que eu preciso melhorar, se é a resistência, se é a musculatura. Mas eu também tenho que estar bem na minha condição psíquica, com tudo alinhado. Por isso que eu falo da boa noite e do bom acordar, do bom ambiente. É toda essa dinâmica que vai fazer tu ganhar o dia. Porque quando tu tá bem, inteiro, tu logo percebe se vem a influência negativa. E daí percebe que aquilo não é teu.

Ao perceber que se está sob uma influência que nos é desfavorável, o que fazer?

Ah, o bom é ir para a natureza, fazer uma coisa diferente. Porque tentar seguir fazendo negócio ou mesmo insistindo em algo quando não se está bem é errar duas vezes. Melhor é sair, passear, curtir o dia na água, coisas assim. É preciso recuperar a própria identidade, disso não se pode abrir mão, em nenhum momento da tua vida. Também é importante não cair no vazio, ficar fazendo coisas por fazer, ao contrário do que deveria ser feito. É sempre lembrar que o que não está certo, está errado. A vida é certa. Se estamos fazendo errado, estamos contra ela.

Isso nos coloca em uma posição constante de autorresponsabilização?

Sim, sem dúvida. Isso é uma responsabilidade. Cada um tem a sua responsabilidade, não é do vizinho. Encontrar ou apontar culpados pelo nossos fracassos é ridículo. Se acontecer de fracassar, recomeça. Não tem problema. Começa de novo, do início, fazendo o certo. Isso não é problema. O recomeço é algo necessário, a gente morre em cada coisa. E alguém pode dizer: é, mas isso aí não foi bom. Grande coisa. Recomeça e aproveita tudo daquilo onde errou, porque dali se tira o aprendizado para aplicar o certo. Nada, nunca, é perdido na vida. É só algo que não funcionou, mas não é que não aconteceu, é uma garantia pra outra vez não acontecer mais.

Como se dá a questão do estudo?

Ler, estudar, é fundamental. Mas é importante escolher o que ler. Limpar a mente com coisas boas. Porque os hábitos saudáveis eles entram automaticamente e fazem bem, os não saudáveis é que nos tiram do centro. Então, não importa a quantidade de livros, mas o livro que tu vai ler, o tempo que tu vai ler, precisa ter um bom conteúdo. Mas é preciso reservar momento para isso. É um bom preparo para dormir. E também um bom início de dia. O conteúdo tem que ter identidade boa. Um comprometimento que se tem, porque é muito fácil não fazer as coisas.

Tu tocas nesse ponto importante, do comprometimento com “as coisas”. Nossa vida é cheia de pequenas decisões, essas migalhas, as miricis do cotidiano. Vou, não vou; faço, não faço. Como a gente escolhe?

Bom, a gente volta à questão do projeto. Se tu tiver com o teu projeto, inteiro, vai decidir bem, tudo vai harmonizar. Mas é claro que tem dias que tu não tá inteiro. Então, o autoconhecimento é muito importante, porque ele te leva a saber quando não tá bem. Então, nesse dia, não toma as grandes decisões. E também não toma as pequenas, porque depois tu não vai gostar muito do que fez. Para as grandes, tem que estar com tudo bem alinhado, tudo certo, é coisa de alma. Se tu tá no dia bom, tudo vai. Ao contrário, não adianta nem trabalhar mais. Melhor parar. Melhor perder esse dia do que decidir mal. Então, não é a quantidade que um líder deve considerar; o líder deve saber que ele deve estar alinhado com os seus liderados na mesma identidade, no mesmo projeto de identidade do negócio, aí acontece a ligação. Se eu falo cinco minutos com o cara que está na mesma semântica, na mesma sintonia, ele vai fazer o certo. Tem um fio que compromete ele a fazer o certo. Então, muitas vezes a gente faz mais, mas deveria fazer menos para ter mais resultado, porque não é quantidade.

Isso por vezes é difícil de enxergar, não? Ainda mais em uma cultura de aceleração, que cobra performance o tempo todo.

Sim, a gente constrói e uma coisa destrói. Então, é preciso cuidado com aqueles pensamentos, aquela psicologia negativa que entra pela porta dos fundos para te pegar. Acredito que no dia a dia não se pode deixar muito solto o pensamento, porque ocorre a simbiose. Tem gente que vem falar com a gente com uma energia diferente, que não tem nada a ver, e aquela imagem fica aparecendo na mente. É preciso cortar. Que gente é essa que tá aparecendo aqui? Que pensamento é esse? É preciso cortar. Corte a cabeça (rsrs).

E como a gente “corta a cabeça”?

Vai fazer outra coisa, vai pensar em coisa diferente, vai comer, vai beber, vai fazer com que aquilo não cresça, porque temos essa invasão ao natural dos seres humanos. Eu deixei a porta aberta e agora é preciso fechar. Então, não aceita o que não é para ti. Faz a dupla moral, que está tudo bem, ali, naquele momento, mas não deixa entrar em ti. Se tiver mesmo um problema, de fato, tu vai lá e resolve. É a tua atitude, a tua energia que vai resolver. E tu vai ter a tua tranquilidade depois. Pior coisa é ficar ruminando, ruminando na cabeça. Tira isso, dá de graça para a água, para uma árvore, que elas limpam. Só com a mente limpa vem a intuição. A intuição todo mundo tem, todos os dias. É aquele flash minuto a minuto que te diz o que fazer. Se tu tá com a cabeça ocupada, tu não percebe nem que precisa tomar água. Isso é uma intuição de vida, uma informação.

Tu falaste daquela informação que não é nossa; e da informação que é nossa. Como a gente diferencia?

Eu acredito assim, que só se vai saber pelo resultado. O resultado é o que conta. Mas eu já vejo, também, mecanismos, pesquisas e consultoria, que nos auxiliam e que podem nos dar mais segurança. O que eu tenho certeza, mesmo, é que quando vem aquele flash, aquela informação que tu sabe que é para ti, para fazer algo, aquela primeira intuição, guarda. Ela é tua, não é de mais ninguém. Veio pra ti e não para outro. Seja responsável com ela. Não joga ela ao vento, não fala para os outros. Ela é tua, e não do vizinho ou do familiar. É para ti fazer. Fosse para outro, o outro que ia receber. Se vai conseguir colocar em prática agora, se vai demorar uma semana, um ano ou mais, não importa. Depois pode usar todos os meios para fazer. Mas primeiro consolida. É tua! E, também, não é vir a intuição e pá, já vou começar a fazer. Não! Vem, por exemplo, uma intuição para eu fazer um restaurante novo. Essa informação é minha. Daí eu vou pesquisar o mercado, ver local, como vai ser. Porque na ação tu faz muitas coisas que até não tinha percebido, é na ação que vai dando solução. Mas a intuição já dá o negócio completo. Eu vejo ele pronto.

O que tu desejas para os leitores da Miricis?

Minha frase final é que todo mundo busque se conhecer, porque todo mundo vem com um dom, todo mundo vem com uma essência e tem isso dentro. E quando descobre esse dom, nada é trabalho, tu te torna uma alegria, porque vai fazer o que veio para fazer, e melhora toda uma humanidade com isso. Porque se todo mundo faz o que é para fazer da sua existência, ele se torna pertencente às coisas, e vários ganham em volta. Meu desejo é que todo mundo encontre e faça a sua vida como a essência, como o dom que veio.

Fotos: Rodi Goulart/Divulgação

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