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Para ir à Sardenha com a Boccati, não basta querer. Tem que ganhar

por Dani Goulart
11 de outubro de 2026
em Cozinha & Vinho

Cada edição do projeto Vini Fatti a Mano leva um grupo seleto à origem dos vinhos. Neste ano, a eleita é a Sardenha. São 300 caixas numeradas. E dois sortudos

Tem gente que, quando descobre o projeto Vini Fatti a Mano da Boccati, pergunta logo se pode pagar para ir junto. A resposta de Julio D’Agostini, fundador da empresa, é sempre a mesma, com aquele sorriso levemente divertido de quem já ouviu isso tantas vezes: “Não tem como. Só vai quem for sorteado.”

É exatamente esse o charme. Como já contamos na matéria sobre a Boccati, o projeto nasceu em 2021 de uma conversa entre Julio e André Roso, proprietário da Mondoroso, importadora especializada em pequenos produtores italianos. A ideia era simples e ousada ao mesmo tempo: montar uma caixa com vinhos raros, de produção artesanal e pequena escala, e dar a quem comprasse a chance real de conhecer de onde vinham. Não como brinde. Como sorteio. Com passagem, hospedagem, roteiro enogastronômico e tudo pago. “O pessoal insiste que quer ir, que paga o que for, mas não tem como. É uma exclusividade, só vai se for sorteado”, conta Julio.

Em 2026, a região escolhida é a Sardenha. E o produtor, Giuseppe Sedilesu.

Enseada de águas turquesa com veleiros e lanchas ancorados, cercada por rochas e vegetação, na Sardenha.

Conheça a caixa Selezione

São 300 caixas numeradas, cada uma com cinco vinhos de Giuseppe Sedilesu, expressões puras das uvas Cannonau e Granazza cultivadas em Mamoiada, no coração da Barbagia. Vinhedos de altitude, sistema tradicional alberello, agricultura orgânica, vinificação natural e uso mínimo de sulfitos. Rótulos que transitam entre potência, elegância, frescor e longevidade, cada um fiel ao caráter do território.

A caixa vem em duas versões: areia, inspirada nas praias da Sardenha, ou pinus natural, em estética clássica. As duas acompanham um cooler térmico exclusivo Boccati para manter o branco em temperatura ideal. Tudo personalizado, tudo numerado. R$ 3.200,00 à vista ou R$ 3.400,00 em até seis parcelas. E o direito de concorrer a uma viagem com tudo pago para dois. Falta pouco para o sorteio, que acontece no dia 24 de agosto. Serão dois ganhadores, cada um com direito a levar um acompanhante.

Caixa Selezione Sardegna aberta, com cinco garrafas de vinho de Giuseppe Sedilesu e o cooler térmico da Boccati.
Giuseppe Sedilesu, fundador da vinícola, segura um punhado de uvas tintas diante de tonéis de madeira.

A vinícola Giuseppe Sedilesu

Há mais de 40 anos, o vinho acompanha a história da família Sedilesu, enraizada na tradição e na proteção da terra como bem comum.

Hoje a vinícola que leva o nome do seu fundador (foto à esquerda) é administrada por Salvatore Sedilesu e sua família. São 20 hectares de vinhedos, aproximadamente 100 mil garrafas por ano, participação ativa na associação Mamojà, que trabalha para valorizar e preservar a região por meio do vinho, e presença tanto na Rota do Vinho Cannonau quanto na primeira Rede de Enoturismo da Sardegna.

Veja o roteiro

De 25 de outubro a 1° de novembro de 2026, os ganhadores e acompanhantes viajam com a equipe de sommeliers da Boccati e as diretorias das duas empresas. São oito dias de foco total em produto, conhecimento e um roteiro planejado para uma verdadeira imersão na cultura, história e sabores da Sardenha.

A viagem começa com embarque em São Paulo, conexão em Roma e travessia noturna de ferry pela Moby Lines até Olbia, com jantar à la carte a bordo e Piano Bar no show lounge do navio. Um jeito elegante de já entrar no ritmo.

Detalhe de uma máscara negra de madeira entalhada, como as usadas pelos Mamuthones de Mamoiada.

Na terça, 27 de outubro, após o café da manhã durante a chegada à ilha, o grupo segue para Mamoiada, cerca de uma hora e 45 minutos de Olbia no coração da Barbagia. O dia começa com almoço harmonizado em formato vertical na vinícola e inclui visita aos artesãos que produzem as máscaras dos Mamuthones e Issohadores, símbolos ancestrais da cultura local. Os Mamuthones usam pesados chocalhos e máscaras negras de madeira para afastar os maus espíritos, enquanto os Issohadores vestem camisas vermelhas e máscaras brancas. A noite encerra com jantar harmonizado, de volta à Giuseppe Sedilesu.

Na quarta, 28 de outubro, caminhada pelos vinhedos de Cannonau ao amanhecer. Almoço harmonizado entre as videiras, no Murruzzone. À tarde, visita ao ateliê do Artigiano delle Maschere e ao Museu das Máscaras Mediterrâneas, em Mamoiada. Mais um jantar harmonizado para fechar o dia.

Placa de madeira com a inscrição “Lollobe bene bennioso” na entrada do vilarejo de Lollove, com telhados e casas de pedra ao fundo.

Na quinta, 29 de outubro, a rota leva a Olzai, para visita a produtores artesanais de queijo com degustação e harmonização. Depois, passeio pelo vilarejo semiabandonado de Lollove, membro do clube das aldeias mais bonitas da Itália, com ruas íngremes de paralelepípedos e casas de pedra cinza onde reina um silêncio que evoca contos antigos. Jantar harmonizado em Monteortobene, em Nuoro.

Na sexta, 30 de outubro, acontece o dia mais cinematográfico do roteiro. O grupo embarca em uma goleta (navio a vela) de mogno de 20 metros no porto de Arbatax para uma excursão exclusiva pelo Golfo di Orosei. A navegação passa pela Isola d’Ogliastra, pelas agulhas de Punta Giradili, pelas cavernas Grotta dei Colombi e Grotta Azzurra, até os fiordes do Golfo. Parada para banho em Cala Goloritzé. Almoço a bordo com vinhos Sedilesu. À tarde, traslado para Cagliari, check-in no Boutique Hotel Carlo Felice e jantar no Ristorante ChiaroScuro.

No sábado, 31 de outubro, manhã livre em Cagliari para explorar a cidade. Almoço no tradicional Mercado San Benedetto e voo de volta ao Brasil.

Informações práticas

Além de comprar a caixa e ficar na torcida, você vai precisar de muito pouco. As passagens são em classe econômica com bagagem de 23 kg e, claro, são emitidas após o sorteio. Quer ir com mais conforto? Só pagar pelo upgrade, se disponível. Como documento, só passaporte válido por no mínimo seis meses após o retorno.

O clima vai estar excelente – já passou um tanto do calorão e varia entre 14 e 22°C durante o dia, com possibilidade de chuva. Roupas ao melhor estilo cebola (vai tirando as camadas) e calçado confortável são os mais indicados. E, vai, um pouquinho de charme para a noite!

Sardenha: três coisas que você não sabia e vai querer contar

A Sardenha tem praias que roubam o fôlego e vinhos que ficam na memória. Mas o que a torna verdadeiramente singular está em camadas mais fundas, que a maioria dos turistas passa sem ver.

Arco de rocha calcária sobre o mar azul-turquesa, visto do alto.

A ilha que Roma não conseguiu dobrar

A Barbagia, a região montanhosa do centro da ilha onde fica Mamoiada, é a única área da Sardenha que resistiu à dominação romana. Os romanos chegaram, ocuparam as costas e as planícies, mas a Barbagia nunca se rendeu. Chamaram seus habitantes de bárbaros, não por serem primitivos, mas por serem insubmissos. O nome ficou.

Esse isolamento de séculos não é detalhe histórico. Ele explica por que a região preservou língua, rituais, gastronomia e uma forma de viver que não foi assimilada por nenhum conquistador. E explica, em boa medida, por que os vinhos de Giuseppe Sedilesu têm o caráter que têm: vêm de uma terra que nunca precisou agradar ninguém.

O ritual mais antigo da Europa ainda em prática

Os Mamuthones e Issohadores de Mamoiada não são personagens de carnaval. São figuras de um ritual cuja origem é anterior ao Cristianismo, provavelmente ligada à civilização nurágica, que habitou a Sardenha mais de mil anos antes de Cristo. Uma das manifestações culturais mais antigas ainda praticadas em todo o continente europeu.

Os Mamuthones carregam nas costas dezenas de quilos em sinos de bronze, curvados pelo peso, com o rosto coberto por uma máscara negra de madeira esculpida à mão. Os Issohadores, de máscara branca, capturam espectadores com um laço. A cena é perturbadora, fascinante e completamente fora de qualquer referência que um viajante ocidental costume ter. Interessante que o espetáculo não tem como público os turistas. É local, há séculos.

O vinho dos centenários

A Sardenha integra o grupo das Blue Zones, as cinco regiões do planeta onde as pessoas vivem mais e com mais saúde. Na Barbagia e na Ogliastra, a concentração de centenários masculinos é uma das maiores do mundo, o que há décadas atrai pesquisadores de longevidade.

Entre os fatores estudados está o Cannonau di Sardegna. O vinho produzido com essa uva tem níveis de flavonoides significativamente mais altos do que a maioria dos tintos europeus. Os homens da região bebem um a dois copos por dia desde sempre, sem protocolo nem consciência de saúde: é costume. O que a ciência tenta explicar, eles simplesmente vivem.

Não por acaso, é exatamente esse o vinho que a Boccati e a Mondoroso escolheram para a Selezione Sardegna 2026.

Fotos: Divulgação

Tags: boccatienoturismogastronomiavinhos
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