Em janeiro deste ano, a Companhia de Ópera do RS perguntou ao seu público, de forma muito singela, pelo Instagram, qual ópera eles gostariam de rever em 2026. A resposta veio com 45% dos votos: Pagliacci.
Em detrimento de O Elixir do Amor, com sua leveza de comédia, e de João e Maria, com seu conto de fadas musical, o público escolheu o drama. Escolheu a ópera que, desde a estreia, em junho de 2023, no Theatro São Pedro, deixou saudades. O pedido diz muito sobre Porto Alegre e sobre o amadurecimento de um público que quer se provocado.
Ao melhor estilo “seu desejo é uma ordem”, nos dias 15 e 16 de agosto, às 20h, no Teatro Simões Lopes Neto, Pagliacci volta.

A obra que escolheu a vida real
Ruggero Leoncavallo compôs Pagliacci, Os Palhaços, a partir de uma história que aconteceu de verdade, no sul da Itália. Não inventou a trama: reportou-a, traduzindo-a para o palco com música. A estreia foi em Milão, em 21 de maio de 1892, e naquele mesmo dia a ópera entrou para a história como uma das peças mais perturbadoras do repertório lírico.
O que faz dela uma obra à parte é precisamente essa fronteira turva entre o que é representação e o que é real. A ópera começa com um prólogo em que um ator avisa a plateia: o que vão assistir não será uma série de palhaçadas. Serão coisas da própria vida.
Canio é o Palhaço. Líder de uma trupe circense, ele anuncia o espetáculo enquanto descobre que sua mulher, Nedda, tem um amante. E ainda assim precisa se fantasiar, subir ao palco, fazer rir. A ária que emerge desse momento — Vesti la Giubba, Vista a Fantasia — é considerada uma das mais exigentes e emocionantes do repertório para tenor. Além do virtuosismo técnico, é preciso cantar a dor enquanto se coloca a máscara da alegria.
Os grandes tenores da história consideraram o papel um dos maiores desafios de suas carreiras. A gama emocional de Canio vai do humor maníaco à fúria assassina. E a passagem entre os dois não é uma ruptura, é uma dissolução. A ficção e a realidade se confundem no palco até que não há mais distinção possível. O resultado é um dos finais mais chocantes da ópera ocidental: A comédia acabou.
Porto Alegre e a música de concerto: um caso de amor que amadurece

Pagliacci chega em um momento em que Porto Alegre vive um fenômeno cultural.
A cidade que, em julho, recebeu pela primeira vez fora da Europa o Belcanto Italia Festival — com artistas de quatro continentes, masterclasses, concertos gratuitos e uma Gala Lírica que esgotou as expectativas — é a mesma que, agora, responde ao chamado de uma ópera que já foi vista e quer ser sentida de novo.
Sinais de um público que tem amadurecido e que busca referências. Porto Alegre sempre teve uma relação especial com a música erudita — a história do Theatro São Pedro, fundado em 1858, é prova disso. Mas o que se tem percebido é diferente: a música de concerto saiu dos círculos de iniciados e passou a dialogar com um público mais amplo, sem perder profundidade.
A CORS, assim como outras iniciativas, tem papel central nessa história. Fundada como projeto de formação e produção lírica, a Companhia, ao produzir, forma plateia. Que aprecia. E pede bis.
A montagem: o Rio Grande do Sul como cenário
A versão que retorna ao palco gaúcho é a mesma criada por Flávio Leite, responsável pela direção cênica e concepção: Pagliacci transportada para uma cidade fictícia no interior do Rio Grande do Sul, nos dias de hoje.
A trupe circense que chega à aldeia é o Grupo Tholl, conhecido dos gaúchos, Patrimônio Cultural do Estado do Rio Grande do Sul, que em 2027 celebra 40 anos de criação. A estética do Tholl, marcada por lirismo e cor intensa, permeia toda a produção: os cenários remetem ao espetáculo Cirquin; os figurinos foram garimpados do próprio acervo da trupe. Essa fusão entre a ópera italiana e a linguagem circense gaúcha é precisa: o circo como espaço onde a fantasia e a crueldade coexistem.
À frente da música, o maestro Evandro Matté conduz a Orquestra Theatro São Pedro. O Coro Lírico da CORS, preparado pelo maestro Sérgio Sisto, será representado por 21 cantores, responsáveis por um dos momentos mais tecnicamente desafiadores da ópera: o Coro dos Sinos, que figura entre os trechos mais reconhecidos do repertório de Leoncavallo.
O papel de Canio será interpretado pelo tenor Lazlo Bonilla. Nedda, sua esposa, pela soprano Rosimari Oliveira. Completam o elenco Roger Bueno como Tonio, Daniel Germano como Silvio e Oséas Duarte como Beppe — todos integrantes da CORS.

Por que ir
Primeiro, porque a ópera é uma das manifestações artísticas capazes de tocar até mesmo os mais apáticos. Segundo, porque Pagliacci é ópera que não deixa sair ileso.
Tem violência, tem drama, tem uma ficção que se confunde com a realidade. Tem a traição. Tem desejo. Tem presença forte do feminino. Tem dominação. Tem ânsia por liberdade. São temas perenes, inerentes à natureza humana.
O final de semana nos oferece uma oportunidade de estar em uma sala onde música, canto, teatro e memória se cruzam. Onde o público vai estar presente. Para viver, sentir e reverenciar.
E se você quiser saber se a ópera é para você, leia também a matéria sobre a etiqueta na Gala Lírica, já publicada na Miricis.
Serviço
Ópera Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo
Dias 15 e 16 de agosto de 2026 | Sábado e domingo | 20h
Teatro Simões Lopes Neto — Rua Riachuelo, 1089 — Centro Histórico, Porto Alegre
Ingressos: de R$ 60 a R$ 180, no Theatro São Pedro. Adquira aqui!
Fotos: Vitória Proença/Divulgação
