“Todos os estrangeiros e mendigos vêm de Zeus. (Xeînoi gár te Diòs eîsin pántes)” Homero
Em cartaz em todo o país, A Odisseia, grande épico relido pelo diretor Christopher Nolan, recoloca em cena um princípio que antecede qualquer protocolo: a hospitalidade como uma base da civilização. Mais do que um gesto social, trata-se de uma estratégia de convivência. O que ainda hoje se traduz como um marcador silencioso de repertório, tanto no business como nas relações pessoais, na Grécia Antiga era nomeado como xenia. O código que organizava o encontro entre desconhecidos e sustentava a confiança em um mundo sem contratos e garantias formais. Receber bem, para aqueles povos, não era boas maneiras ou gentileza. Era, sim, estrutura.

Protegida por Zeus Xênio, o guardião dos estrangeiros, xenia instituía obrigações mútuas entre anfitrião e viajante. Um verdadeiro código moral para medir a civilidade e promover a coexistência entre os diferentes. Acolher, oferecer alimento, banho, abrigo. E, ao partir, presentear. Em troca, ganhava-se o respeito, a consideração.
Uma lógica simples que sustentava alianças, comércio e expansão cultural e distinguia quem sabia viver de quem ainda operava como um selvagem. Violar esse princípio de bem receber, mais do que gerar desafetos, provocava a ira de Zeus. Quebrava-se a regra de ouro – trate os outros da maneira como você quer ser tratado.
Essa a base de confiança que se rompe na guerra de Tróia. Da mente inventiva e estratégica de Ulisses, que concebeu o cavalo de madeira, o presente grego que ocultava a destruição, veio a vitória. E, ao mesmo tempo, o martírio. Ao entrar em Tróia com o cavalo repleto de soldados, Ulisses quebra o princípio da hospitalidade, de xenia, e vai contra o mundo ao qual pertence, tendo a culpa como sua parceira.
A hospitalidade como estilo de vida
No retorno a Ítaca, o que deveria ser a travessia de um rei vencedor se transforma em odisseia. São 10 anos de deslocamentos, perdas, desvios, lutas. Em Esquéria, Ulisses é acolhido pelos feácios e pela princesa Nausícaa sem que lhe soubessem a identidade – oferecem-lhe banquete, roupas e um navio para que retornasse à casa. A hospitalidade estava presente, com o reconhecimento das necessidades do outro.
Já no encontro com o ciclope Polifemo, acontece o oposto: Ulisses lhe pede acolhida, invocando o Zeus Xênio, e encontra brutalidade. O ciclope devora seus companheiros e ri, com ar de deboche. Não há compartilhamento. Pelo contrário, impõe-se a violência. Em Ítaca, uma outra forma de distorção. Os pretendentes de Penélope abusam da hospitalidade instalando-se no palácio, consumindo os bens do herói e maltratando-o quando retorna disfarçado de mendigo.
Xenia, em momento algum, é o dar sem receber, o entregar-se de olhos fechados. Pelo contrário. É saber receber e saber até onde ir. Justamente a medida que sustenta relações consistentes, sejam pessoais ou profissionais.
A hospitalidade, quando compreendida como estilo de vida, deixa de ser um gesto pontual. Ela passa a ser estratégica e a compor nosso modo de estar no mundo. Faz parte do nosso jeito de ser. Está na forma como se conduz uma reunião, como se ocupa uma mesa, como se acolhe o outro. Tudo isso sem deixar que o outro nos prejudique ou invada os nossos domínios.
Quem domina essa lógica constrói conexões, estabelece confiança e sustenta a própria presença. Quem a rompe, ainda que vença a batalha, tende a pagar o preço na instabilidade que segue. Talvez seja esse o tormento de Ulisses.
Para o rei de Ítaca, ganhar a guerra foi um verdadeiro golpe de mestre.
Os 10 anos de retorno à casa, vagando pelo Mar Mediterrâneo, no entanto, nos mostram o valor de xenia. Para quem é acolhido, mas principalmente para quem recebe.
Foto: Melinda Sue Gordon/Universal/Divulgação
